quarta-feira, 22 de abril de 2009

A BIBLIOTECONOMIA E AS OUTRAS

Meu projeto de escrever uma série de textos reflexivos sobre a crise em que nos metemos, face a outras demandas, caducou. Não há vaca e nem brejo, mas a vaca está indo para o brejo. E as pessoas estão inquietas. Fiz dias atrás, aqui mesmo, uma pergunta picante: o aluno de biblioteconomia aprende a ser diferente na sala de aula ou antes de optar pela biblioteconomia já era diferente? Em outras palavras: a questão é de ambiente escolar ou de personalidade? Eu não sei responder. Mas pelos anos de magistério observo que o ambiente da biblioteconomia reforça a personalidade da maioria; a minoria, com outra personalidade, rebela-se. Em turmas de biblioteconomia posso, rapidamente, aplicar o título de uma famosa obra de Umberto Eco: Apocalípticos e Integrados. Na sequência do raciocínio, vejo e escuto e concluo: a maioria é integrada. Mas há uma parte de apocalípticos que vive inconformada, vira a mesa e desiste. Seria bom que alguém tivesse a paciência e a coragem de calcular o índice de evasão nos cursos de biblioteconomia. Aqui na USP, por dados oficiais, é alto. Por que isso acontece se a Universidade é gratuita e a carreira “promissora”? Creio que a maior parte dos evadidos são os apocalípticos. É uma pena, pois são exatamente esses que mantêm a chama do debate acessa e que seriam, usando a expressão bíblica, o “sal da terra” da profissão.

Quais seriam as características básicas dos integrados? Primeiramente, regozijam-se com disciplinas “práticas”, essas que ensinam “como fazer”. Rejeitam e sofrem com disciplinas mais teóricas, pois elas não vão servir para nada na vida real, são inúteis. Anos atrás estava “dando aula” (raramente faço isso) e, nessas horas, tenho voos livres, estratosféricos. De repente, uma aluna me puxou para o vil e áspero chão e me perguntou: “isso cai em concurso?” Por uns segundos fiquei catatônico e disse: “não, não cai em concurso, cai na vida”. É que, de um modo geral, os ensinam "o fazer" e, dificilmente, "o pensar". Em termos mais crus: formam para concursos e não formam para a vida e as suas circunstâncias.

Outras diferenças poderão ser vistas posteriormente. Mas fica uma pergunta final: entre apocalípticos e integrados como podem ser divididos alunos de outras áreas profissionalizantes? Em jornalismo, por exemplo, como é o panorama?

6 comentários:

  1. Professor, mas os que se encontram na coluna do meio? os que se integram e gritam por mudanças? eles não existem? Suas indagações são desconcertantes porém nos faz pensar que o que hoje está estabelecido pode ser diferente e melhor.

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  2. Posso dizer que fui um aluno inconformado (fora da forma) e dei muito trabalho. Continuo assim. Gosto do jogo dos conflitos em busca de uma solução (que nunca será definitiva). O meio termo seria o iconoclasta que saiba criar imagem. Em outras palavras: se não gosto de uma idéia procuro reduzi-la a pó. Mas sei colocar uma outra idéia no lugar. Esses são os melhores alunos. Aliás, assim também são os melhores professores: aqueles que duvidam e pensam com os alunos.

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  3. Muitos estudantes entram na graduação pensando numa carreira (talvez devesse chamar de emprego) que traga facilidade de entrada no mercado de trabalho, estabilidade e um salário condizente com a importância de sua área. Nada contra querer um emprego e um salário que nos permita satisfazer necessidades básicas para sobrevivência, incluindo aí a parte cultural. O grande problema é não ir além dessas questões. O que fazer para estruturar uma carreira, academicamente falando, é que deveria ser o "X" da questão. Que modificações devemos almejar para a Biblioteconomia, para os profissionais ligados à área e para a sociedade como um todo seria uma pergunta interessante a nos fazer sempre.

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  4. Alexandre: você está apontando para um fenômeno que acontece em outras áreas. Percebe-se o fato com mais clareza quando comparamos o ensino numa instituição pública e numa privada. A primeira, normalmente, não está tão vinculada ao mercado de trabalho quanto a segunda. O que tem acontecido é o pragmatismo discente que pede, como alimento, as técnicas do "como fazer". E aí puxa tudo prá baixo. Tenho insistido muito nisso: vamos, sempre, puxar para cima, pois para entrar em algum emprego algum conhecimento técnico é exigido, mas para fazer uma carreira forte é preciso muito mais do que o domínio de algumas técnicas. Aí o que pesa é a solidez intelectual que só uma excelente formação pode dar.

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  5. Rosa simplesmente28 de abril de 2009 05:45

    Uma notícia importante:

    "Brasil vai ter bibliotecas públicas em todos os municípios até julho"
    (Agência Brasil, 26.abril.2009)
    http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/04/24/materia.2009-04-24.1682921116/view

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  6. Rosa simplesmente28 de abril de 2009 12:25

    A meu ver o grande problema está no fato de que os “integrados” constituem a maioria dos bibliotecários da ativa, em relação aos que atuam em bibliotecas públicas, inclusive as de universidades (sim, USP inclusa). De fato, vejo uma sinergia negativa entre bibliotecários “integrados” e serviço público, em que temos o pior dos dois mundos: o que impera é uma cultura fortemente corporativa, orientada para o refestelo do funcionalismo, avesso a mudanças, tanto de "status quo" como de "modus operandi" profissional.

    A lástima maior é que não há como renovar estes quadros no curto e médio prazos. Ai do pobre bibliotecário que passa em concursos (concorridíssimos, por sinal) para atuar em bibliotecas públicas. O novo funcionário, normalmente jovem, recém ou com poucos anos de formado, com o aparato teórico atual ainda fresco na cabeça, chega com todo o gás (um apocalíptico?) no novo local de trabalho, e depara-se com um verdadeiro "paredón" de imobilismo e aversão a mudanças, por mínimas que sejam. O corporativismo que impera produz inclusive estratégias coercitivas e constrangedoras, o que é grave, configurando assédio moral. O novo bibliotecário, o que faz nesta situação? Abaixa a cabeça e entra no esquemão, ou rebela-se (apocalíptico...) e cai fora.

    E assim, a vaca, placidamente, continua sua caminhada inexorável rumo ao brejo...

    (P.S: Descrevi o que vejo e acho do contexto público, não desmerecendo aqueles bibliotecários destoantes da grande maioria existente no serviço público, que, em última análise, são honrosas exceções. Mas as exceções só confirmam a regra...).

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